Toda a época quaresmal, na ilha de S. Miguel, grupos de homens saem à rua em grupos e percorrem a ilha toda em romaria às igrejas e capelas dedicadas a Nossa Senhora. Originalmente resultado da necessidade de prevenir, pela fé religiosa, grandes calamidades (como terramotos, no século XVI), actualmente tanto pode servir como pagamento de promessas, como para pedir saúde e sorte, ou como período de auto-reflexão e diálogo interno, para reafirmação da religiosidade.

O grupo de romeiros caminha em duas filas. O romeiro usa bordão (usado sempre pelo lado de dentro do grupo), xaile e lenço, mochila e normalmente ténis, caminhando com um terço na mão e outro ao pescoço. Percorrem grande parte da ilha, a pé. Todo o caminho é a rezar, pois esse é um dos grandes propósitos da romaria: não dar um passo sem rezar. Quando chegam a uma nova freguesia, pedem licença ao patrono da igreja e lá participam da missa. À noite, pernoitam em casa das pessoas que aceitam, normalmente aos pares, dar-lhes guarida (e alimento).
Não sendo uma pessoa religiosa, acho que a fé, quando utilizada de uma forma positiva, é um instrumento poderoso e de inegável valor na valorização humana. As romarias quaresmais em S. Miguel são um marco importante da vivência religiosa das pessoas da ilha, mesmo daquelas que não participam directamente no grupo. Até nos meios de comunicação social saem as notícias dos grupos que se metem à estrada, e na própria rádio se dá o alerta aos condutores de tomarem precauções na estrada em relação aos romeiros.
As actividades religiosas que juntam as pessoas em torno de um propósito positivo, de um objectivo de comunhão e união, em que se materializa a fé religiosa no que esta pode ter de bom a dar à vida de cada um e a todos, em geral, para mim são sempre momentos especiais. Quando era mais novo, sentia a obrigação de acompanhar a minha avó na procissão do Santo Cristo, em Ponta Delgada. Emociona-me ver as grandes missas em Fátima, as procissões (mesmo locais) e estes romeiros. Não pelo seu carácter institucional, que a mim a instituição e burocratização da fé não tem interesse, mas pelo lado emocional e espiritual, e pela capacidade de, através destes actos religiosos, cada um se realizar ainda mais como um cidadão consciente dos outros, e mais tranquilo em relação ao mundo e consigo próprio.



